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sexta-feira, 26 de junho de 2009

Sensei!...

Finalmente estreei como professora de português para japoneses! Difícil ensinar sons que simplesmente não existem na língua deles. Mas eu gosto de coisas difíceis, o desafio me parece saboroso. Se eu estou aprendendo japonês... Uma aluna quer aprender porque a amiga da filha mesmo sendo brasileira, fala japonês com perfeição, uma outra teve uma amiga brasileira nos tempos de faculdade, um menino tem amigos no ginásio, outra quer conhecer a cultura, culinária. E eu preciso tornar isso interessante, afinal são 2 aulas por mês, de 1h45min, não pode ser cansativo. A professora anterior era japonesa, eu sou 100% importada! Na semana anterior ensinei culinária brasileira no curso de japonês onde estudo, o prato principal era FRANGO COM PIRAO, pesquisei origem, historia,etc. Mas antes disso, dei feijão com farinha de mandioca, bolinho de arroz, casca de banana a milanesa,suco de guarana em po, e o povo gostou.Tudo explicadinho, quando temos dinheiro comemos isso e aquilo, quando não temos...Depois do pirao, pudim de padaria e cafezinho. Também pretendo ensinar culinária no curso de português. Enfim, mais uma porta que abriram e vapt! Já estou dentro! São pequenas mas valiosas oportunidades de resgatar um pouco da minha brasilidade, coisas esquecidas como a farinha de mandioca com chá mate ou leite... De volta, a sala de aula! Justamente eu, que não queria ser professora! Não, definitivamente eu não joguei pedras na cruz! Devo ter rabiscado: a-e-i-o-u! O destino me persegue! Mas ta bom! Ta muito mais que bom!

domingo, 21 de junho de 2009

DIA DOS PAIS????

Hoje é Dias dos Pais no Japão! Que me desculpem os pais, mas aqui esse dia é tão sem graça como no Brasil... Algumas promoções, liquidações, os shoppings cheios de famílias na praça de alimentação e as mães comprando alguma coisinha para os pais enquanto olham atentamente os artigos femininos... Dia das Mães é muito melhor, mais emocionante, mais especial, mais tudo! Por que pai é... é só pai né. Que maldade! Mas sorte de quem tem pai que não espanca, que não xinga, que não enche a cara e quebra a casa e a família... Sorte de quem tem pai que participa, se preocupa... Azar de quem se isola, culpa o pai por tudo, não deixa que ele participe de nada... Azar de quem acha que não tem pai, que se sente abandonado, mas não sabe e nem quer saber dos reais motivos do afastamento, não sabe das lágrimas que o pai derramou no decorrer dos anos que passam tão rápido, não sabe da saudade... Azar de quem se acha substituído por outros filhos, afinal para pais e mães os filhos são todos iguais, a diferença esta entre os irmãos apenas; quando esta. E eu que também não convivi com o meu pai, não sei se ele chorou por mim ou não, ele não me viu crescer, não me sustentou, cresci como muitas crianças brasileiras, me sentindo órfã e não me deixando adotar por ninguém. Nós filhos e filhas, só vemos o que não tivemos, só sabemos o que sofremos e na maioria das vezes traduzimos sentimentos em números e presentes, afinal somos filhos; eternas crianças! Boa desculpa, ne... Brasileiro no Japão tem dois Dias dos Pais, hoje e em agosto! Muita injustiça! Nos mães só temos o de maio, mas tudo bem somos generosas, compreensivas...

domingo, 7 de junho de 2009

De olhos abertos para o futuro...

Ultimamente estou assim, se me abrem uma porta; entro! Não interessa onde vai dar... Afinal a tal da integração com o Japão e os japoneses jamais acontecerá se eu ficar trancada em casa reclamando da crise e assistindo os canais brasileiros... ( nada contra!)
O nosso futuro é a velhice! A nossa e a dos outros. Para a nossa velhice, segura e tranquila, podemos trabalhar com a velhice alheia, esse campo parece amplo, até os japoneses estão querendo esse trabalho agora. Não deve ser fácil lidar com as dificuldades pessoais de cada um, principalmente aqui onde os idosos são muito bem cuidados. Mas se a velhice e a dependencia fisica é o nosso futuro óbvio, esse me parece um bom treinamento, principalmente emocional. Para trabalhar nesse setor, não basta pensar na questão financeira, nem saber fingir que gosta de idosos, é preciso se reeducar em muitas questões. Este campo está se abrindo mais aos estrangeiros, mas é preciso certa fluência no idioma, ler e escrever uma boa quantidade de kanji mesmo nos locais onde não exigem diploma de helper.
Outro dia, uma amiga japonesa, me conseguiu uma entrevista num asilo, para eu ver como era, como me sairia. Nesta porta aberta por ela, fui muito bem recebida, na verdade foi a primeira entrevista real que fiz em quase 7 anos de Japão, daí saiu o convite para conhecermos o local como voluntárias e se caso me interessasse trabalhar ali...
A porta se abriu e eu, vapt! entrei logo... Hoje fomos lá. Nem mesmo no Brasil, jamais visitei asilos, ainda que sempre tive vontade de ser voluntária de alguma coisa. Mas pelo que vemos na tv...
O local que conheci é dividido em 2 alas, na ala dos internos estão as pessoas que já não podem morar sozinhas, tem problemas fisicos, idade avançada, etc. 50 pessoas, 2 pessoas em cada quarto limpo. arejado e com banheiro, sofás pelos corredores, sala de refeições e recreação, vasinhos sobre as mesas, funcionários extremamente atenciosos... Na outra ala, ficam as pessoas que vem para determinadas atividades como o banho de ofurô, passeio,(hoje passeamos por uma hora por Shinminato, coisa que não podem fazer sozinhos ou a familia não tem tempo) etc. A sala de banho é imensa, uma primeira parte com uma banheira (ofurô) para aqueles que conseguem se locomover, numa segunda parte destinada aos que tem problemas de locomoção e uma terceira para os que não se movem, nesta há um tipo de maca que desce dentro da banheira. Enfim o idoso é prioridade o tempo todo. Os não internos são buscados e devolvidos em casa pelo ônibus da instituição. Outra coisa interessante é que aqui para se trabalhar com idosos é preciso usar a linguagem mais polida possivel, e ainda o dialeto local. Definitivamente o idoso não pode ser visto nem tratado como um trapo velho...
De vez em quando ( eu adoro isso!) é muito bom ser diferente, provavelmente a maioria dos velhin... ops, dos idosos, jamais viram uma alien do Brasil, assim tão simpatiquinha, tão bonitinha, tão de pertinho e quase falando a lingua deles. Mas fui muito bem recebida, uma senhorinha agradeceu muito dizendo que tem uns sobrinhos no Brasil, quase chorou. Uma outra me olhava com uma curiosidade, como seu fosse uma boneca importada... Todos me pediram prá voltar. No final, entraram em seus onibus e foram embora cheios de assuntos do Brasil enquanto um senhor se despedia com as duas mãos no peito formando um coração e sorrindo...
Valeu. Valeu pela porta que estão me abrindo e pela satisfação de ter contribuido para alegria dessas pessoas. Ao longo de minha vida, sempre ouvi muitos dizerem que tenho uma luz muito boa. que tenho o dom de iluminar as pessoas. Hoje, não consigo explicar o que vi no fundo dos olhos daquelas pessoas, saí de lá leve, com o coração feliz. Quando cheguei em casa, me olhei no espelho e me senti iluminada...
Eu voltarei lá.Numa próxima vez, num outro horário, prá ajudar de verdade. Quero aceitar o desafio, aprender a lidar com as dificuldades minhas e deles, aos poucos, aprender a linguagem formal, os termos técnicos...
Até que um dia, quem sabe eu entre prá ficar...
Enfim, um dia feliz!!!